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beatnik blues cafe SP, ph Barrox, 2008

soNgs froM LiQuid DaYs
...repetindo: foi numa tarde ensolarada - era quase nunca ao meio-dia entre abril e setembro - de quase sempre olhar em direção ao vento traços inexatos, telas brancas e fotografias preto&brancas coloridas em cores saturadas e agora se passaram cinco anos agora com driving into delirium tocando na caixa (arrá! você pensou que eu ia falar vitrola...) e cinquenta coisas diferentes aconteceram ao mesmo tempo neste século entre folhas de árvores secas, sentados na praça, no chão, lembranças, sua voz de vez em quando, seu corpo de vez em sempre. Era numa tarde de óculos escuros y coros imaginários, no display índios canibais esperando o navio atracar com as tais trapezistas virgens. Numa tarde de andar de bicicleta e sorrisos - eu nunca sei - mas tinha música como essa que agora fala de Paris e mistura Satie e depois a genial Cida Moreyra na balada do louco e lá longe as coisas são assim, aqui fica tudo podre às vêzes, mas nos falamos sou feliz, assim como nos falamos foda-se ou fica triste. Não entendo outra língua, mas quero sua língua. De se beber com o cônsul Geraldo na calçada do Consulado entre odaliscas, tarólogas, putas, sapatas (ops) e meninas de família fazendo virar a mesinha desse bar antropofágico falando e lendo meias verdades, soy loco por ti, América. La main parisienne e daí olhando essas meninas meio que mostrando a bundinha y generosos decotes passeando entre clics techno macunaímicos mímicos de olhares de desejo ou de nunca ou de sempre fica engraçado escrever isso; e o cara falando Catherine Deneuve com aquele sotaque que acho legal e eu pensando Béatrice Dale em Betty Blue e aí encontro minha amiga Marie Lorraine na porta do estúdio e ela tem esse sotaque legal. E quando o sol se coloca de lado - querendo descer - aí aponta a Lua minha amante cheia (de amor?) e meus olhos mecânico-digitais olham nos olhos dela e vejo marcas em seu corpo... mas ela é linda, sempre. Aqui nunca é tarde demais, vejo na fotografia em que você me olha nos olhos e agora nossos tempos nem são tão diferentes porque essas linguagens não tem porque serem datadas, seladas, carimbadas com esses venenos da medíocre hipocrisia. Melhor assim que não assim. Na tarde quente, conversas de Angela água tônica com gelo e sanduíche de pernil feito por Cleide plus docemente selvagem e temperado sanduíche buraco quente e cerveja gelada et saliva e boca ou quadris ou pernas cruzadas e olhares idem e depois no Alberico capuccino-Camaleoa-poeta. São Paulo é como o mundo todo, diz Caetano. Somos ridículos, diz o velhote, e não tenho certezas apesar dos brancos cabelos, camisetas manchadas de tinta acrílica e guaches misteriosos retratando minhas íntimas paisagens (des)conhecidas. Somos geniais também, você nem imagina o quanto; mas ele já se vai e não importa, a tarde tem poesia correndo solta BeAtriz, vou pegá minha fulô. No entanto não me importam mais as coisas que saem escritas nesses jornais do Sistema. Sempre mentem, agora eu sei, porque me disseram do Amor e querem me fazer ler Ódio. A vida é como um cinema, mas foda-se - eu sei que vou morrer no fim - porque importante foi me tornar gente da floresta, assim como importante foi te olhar nos olhos tantas vezes e te ver chorar e sorrir quase-criança-mulher. O importante é ter poesia, letras et imagens, desejos sussurrados... No hay pecado mi amor do lado de baixo del ecuador, terno tempo eterno salada de frutas pimenta nos lábios fotografias et plus outras finas iguarias mineiras de chef Fernando no Consulado da Cônego with pinga da boa with ponderações acerca de serramalte ou bohemia, você sabe com quem. E a vida é bela y quando cai a noite en la calle y en las ramblas et tropeçando nos copos & ainda tem muito mais pra acontecer e parecer. Mas, dizia eu, foi numa tarde ensolarada que podia ter sido manhã chuvosa ou madrugada de neblina. Em que imaginei seu corpo de biquíni sem a parte de cima dentro do carro indo pra praia. E agora você vai se lembrar disso a vida inteira, porque também não quero te esquecer. Agora - on the road - depois de tantas tardes e personagens e o carinha nem aí olhando as árvores não me importam amanhãs. Ou como acabou aquele texto, já se passaram todos estes anos, e dizia o cavalheiro Osvald 'no pão de açúcar de cada dia dai-nos senhor a poesia de cada dia'. e tal e coisa... Agora vambora que tem mais cinco séculos e mais uns cinquenta finos biscoitos, inclusive meio culturais. Ou também, como o Jimmy Page também já havia dito: 'você não cai na estrada pra ficar entediado, né?
texto referência publicado por Lilian, Rebecca & Barrox na edição#4, depois reescrito por Mariana Terracota na edição#39 e agora absurdamente reutilizado por Eduardo Barrox ao celebrar os cinco anos de brava resistência do Jornal da Praça
Escrito por Eduardo Barrox às 8:40:58 AM
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respeito muito minhas lágrimas mas ainda mais minha risada escrevo assim minhas palavras na voz de uma mulher sagrada (Caetano Veloso)
BARCELONABABILONIA e invadem a noite, vem de algum lugar do espaço sideral e se projetam nas telas da televisão em sombras algo pálidas ora coloridas em tons fortes & algum movimento et em relatos de alguma coisa como as meninas de gotham city esperando passar a luz do holofote de batman e praticarem safadezas nas vielas escuras, entre gatas no cio, risadas nos bares, automóveis de luz baixa and teores alcoólicos intensos e bêbados com fumaças de cigarro entremeando-se de incensos e dias de angústia y noches de alegria ou ao contrário como nem sempre, porém com significâncias registradas pela digital em plena madrugada, avenida paulista, são paulo, ou em algum lugar de longe - qual será? - em riscos de luz músicas de chet baker y máscara docevampira fusões metafóricas com a cítara de marsicano em danças celtas deep purple, ou você sentada aqui perto de mim como naquele dia, ou que você telefonasse de novo pra me ouvir dizer que te amo por mais improvável que seja este encontro ultrassônico, divindades, futuro, analfomegas tal e qual a música no disco de capa branca E a cidade é como o universo E como nem sabe que era bom o sol brilhar sobre seu corpo enquanto Te como e Te conto histórias enquanto você me come e diz desejos. e ali dentro, atrás da porta sob sons inaudíveis os reflexos e projeções astrais, viagem infinita por dentro dos olhos verdes do gato, o terraço em meia-luz all the things you are entre as pernas abertas e toda a sensação que veio forte naquele momento em que senti seu lábio e estávamos completamente distanciados do planeta ou dos carros que passavam pela rua porque olho pela teleobjetiva - ruas feito gaudi - e vejo você sorrindo, porque em cada taça de vinho brindo a você e fico revendo olhares ressonando nuances de preto & branco na fotografia e quem foi mesmo que disse que sem o impossível o mundo não teria graça, nem a vida, nem as filosofias, nem as filosofias vãs, nem as teorias, nem toda a merda que me disseram os professores, nem as canções, respirando entre movimentos nem as poesias, nem as fotografias, incluindo aquelas em que você aparece e me olha diretamente nos olhos resumindo e compactando portanto a dualidade e as fantásticas fronteiras entre claro e escuro ou entre noite y dia de soleil vaca profana entre tristeza e alegria angústia & não-angústia, a roupa que nem sei se serve quando tudo o que precisamos é negar absolutamente a lição errada ou o que não querem os que não querem felicidades e ler o livro falando em voz alta entre outras palavras e outras taças de vinho crazy rhythm ou canecas de orchata de chufa, pensando num trecho do filme em que você caminha e nossos corpos separados pelas irrealidades se arrepiam de tesão, a descoberta dos segredos um suave movimento das pernas ou mexer nos cabelos tudo isso as certezas e as dúvidas Agora Hoje tem o sol no terraço y en las ramblas e não quero mais ontem and em cada sombra projetada el contorno de su cuerpo sob movimentos ora suaves ora diretos tem um grande espaço à frente a partir da música que nunca pára porque vem do interior de seu olhar e de seu corpo mulher menina nua sob o lençol a cada manhã.
Eduardo Barrox
Escrito por Eduardo Barrox às 11:52:44 PM
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fotografia por Barrox, série Cotidianos & Impertinências, 1990

And ... en la nuit fria e clara da primavera outonal da cidade maluca, nem tão maluca assim. Sob a bruma quase não vejo a mulher de maquiagem carregada atravessando a ponte em vestido justo e cabelos em desalinho. E olhar de desejo não de sexo nem de amor, mas de pixulés que lhe abrem diariamente as portas do paraíso ou mais um copo de bebida barata y um cigarro de crack. Pra depois botar tudo pra foder. E, a respeito das palavras, quase quase todas vãs. Ou ninguém tudo; ou nada e alguém. Fico querendo dizer não pras babaquices chamadas politicamente corretas e da atitude fake pretensamente urbana contemporânea, da gente sem eira que - de alguma forma - arranjou uma beira, que não suportam se olham en los ojos ou se olham com segundas terceiras péssimas intenções e que transformam e quase arruinam o eventual lirismo das avenidas terra de ninguém em que sujeitos equivocados equivocam-se passando sinais vermelhos e fodem menininhas também equivocadas e se atropelam e se chacinam mais que guerras. E vêem velhos e pobres com desdém. Até que, enfim, tenho que continuar nos jogos de faz-de-conta e meus circunstanciais pesadelos mostram o filho com uma espada sobre minha cabeça coadjuvado pelos sorrisos bruxelescos da moderna inquisição que condena as insustentáveis levezas e dá ingredientes amargos aos doces sonhos. Poemas de William Blake e preposições gramaticalmente difusas; meu Olhar-Câmera-mental-digital revela movimentos online noturnos y meu Olhar descansa confortavelmente através da velha e familiar teleobjetiva. Que também procura revelar cada um de seus segredos sempre que você me olha através do vidro dos óculos escuros e aí descubro (na fotografia) seu olhar intenso e te como enquanto vasculho sua intimidade porque quero te amar. Et... Avanços tecnológicos que aproximam terráqueos distantes em rápidas frações de segundo e prolongam a vida ad infinitum não são suficientes pra evitar que os caras buzinem antes que o sinal se abra completamente... Sallingereiscamente penso que quero distância disso tudo, e que preciso do silêncio do bicho que dorme e a música de quando você me diz nada do que quero ouvir. De qualquer forma, saio do circuito quando quero e porque não dá mesmo pra viver sob esse tipo de pressão. E pessoalmente sinto que os olhares do coro invisível não querem me ver dado que não sei jogar o jogo social da hipocrisia e – por mais idiota que seja dizer isso – o capitalismo me enche o saco e os neoliberais me torram a paciência e as pessoinhas de nariz empinado dessa cidade são absolutamente idiotas & as notícias de jornais apenas potencializem essa hipocrisia que não se importa de vender e foder meninas pré-adolescentes para apenas numerá-las nas estatísticas que matariam de vergonha qualquer dos caras do poder que tivesse um mínimo de dignidade. Depois fecho meus olhos porque quero ficar sonhando seu olhar, bebendo suas palavras vindas do outro lado do abismo, tentando descobrir significados e pensando num jeito de bebermos vinho tinto para comemorar as reviravoltas latentes ou passar duas horas de cinema ou mil e trezentas na Mostra de Cinema e depois nos fazermos amor como sempre deveríamos. Não te olho nem nos olhos porque meu cérebro arde toda vez. Mas observo atentamente seus lábios em movimento enquanto você lê poemas em voz alta e seu vestido resiste ao vento da tarde de sol e frio ao mesmo tempo e a transparência provocada por esta mesma luz deste mesmo sol me enche de desejo, além das naturais e antigas alegria e preguiça. Que penso em que depois tem outro dia e assim assim procuro formas de destruir as lógicas maniqueístas que me infernizam e me torturam e procuram me destruir a cada encarnação, porque o coro de vozes dos seres invisíveis não me responde às mais básicas e fúteis e necessárias expectativas, porque não sei se devo dar bom dia ou mandar todo mundo tomar no cu assim logo de cara antes do sol voltar, porque me emputece saber que o outro cara destrói plantas que deveria regar e porque fingem prolongar felicidades, mas na verdade é a última passagem antes da ponte que nos separa – nós humanos - sabe-se lá de onde. Até porque ninguém me garante que mortos têm savoir-vivre, então não me queira lá nunca, porque vou querer debater a legitimidade do juízo final, porque não entendo só o mal e o bem, porque não vou julgar e nem me considerar julgado. Porque passeio às vezes cantarolando alegria, alegria e/ou let the realing begin pelas ramblas no planeta e converso num boteco com miles davis e misturo taças de vinho tinto ao pão que me foi legado, em nome do pai, e que agora querem me tirar em nome do filho sem se darem conta de que apenas me importa o santo espírito. Y cosas assim...
Eduardo Barrox publicado na edição#17 do Jornal da Praça
Escrito por Eduardo Barrox às 10:11:53 PM
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Barrox auto-retrato

nem sempre eu sei de tudo ou quase sempre não sei de nada
no meio da multidão grito em silêncio gritos de silêncio, enxergo através de luzes coloridas misturo emoções et sensações digitais tipo torquato andando pelo Rio luzes da cidade, dispersas palavras dissimuladas emoções o tempo num segundo, poema do gato, rock-balada todas as tardes chet baker Ipanema mariah mãe de gal a gente nas dunas da gal meu desejo ilusão tom jobim na mesa de bar.
corte pra cidade-turbilhão, décadas depois,
os locutores de rádio vociferam contra a surdez dos idiotas que guiam seus brinquedinhos metálicos arrogantemente falando idiotices nos celulares, vítimas ao mesmo tempo algozes das ‘modas’ e equívocos sensoriais. não me diga fernandopessoa que - até porque quero que certas insitutições se fodam - responderei machadodeassis brechtnianamente enlouquecidos in sonetos góticos na menina tatuada o corpo marcado city lights "onde andarás nessa tarde vazia?" nossas vidas tristes diluídas em alegrias na grande cidade, enquanto agora nossos olhares um tanto cansados nossos corpos, saudade da Vida que acordará amanhã antes do meio-dia, sou tua sou nua sou lua. andamos depressa pela rua augusta sarcófago dos tempos imemoriais às cinco da manhã o grito se repete, marcas de cigarro no corpo tatuado, em seu cabelo curto colorido ela me diz nietzsche, entregando-se my funny valentine just friends.
me fode me fode, ela também diz.
antes do sol nascer procuro recompor minhas sensações, a cidade que nunca adormece acorda de novo, poeta caetano caretano sanduíche com gosto de ontem, maquiagem, meus dias & noites táxis encostados nas calçadas e motoristas sonolentos esperando a cidade e seus habitantes acabarem de se foder para o dia recomeçar nos pardieiros do centro da cidade, cantos do amor (in)correspondido, libertação, respiração, meninas de doze anos seminuas em expressões esfomeadas INfelizes de bonecas no colo e sexo sujo com homens sem rosto e restos de comida jogados na cara.
nossos poemas - o seu, o meu - demarcam territórios, estabelecem a posse espiritual Amor feito o sal da terra, cheiro de mato na lembrança, quero sempre gritar estas vozes estas dores que alucinam estes gestos inertes estes bichos de olhos brilhantes que não morrem.
ferlinghetti chuta a porta do quarto de hotel barato berrando no meio da noite, quem são estes amores desamores? onde aquela menina em retalhos de roupas rasgadas? e de fome atávica onde as tempestades cósmicas.
enquanto ligia bebe o vinho tinto e me diz blue note albamariseyalberoni trocam versos et milestones em velocidade lilian de frases incandescentes e jorram raios de luar doces palavras de cris e descompassos reconstruídos, cenas de jean-luc godard - onde estão as fotografias? - preto&branco in color ravel soy loco por ti américa soy despudoradamente loco por ti mujer, desordem do caos que dança na avenida corrientes e coreografa sobre o arco do triunfo movimentos corporais em outro continente compassos caóticos, cabelo descolorido, pele clara, estendendo-se a madrugada delineada pelas luzes da cidade e pelo movimento de saltos altos e vestidos curtos na calçada da avenida são joão para que se possam compartilhar as orgias, o copo de bebida, as vidas vividas, os credos, as orações, soy loco por ti e eu sei que você sabe café expresso no jardim da luz acarajé batuque ancestral negra linda reluzente corpo nu bossa nova Êxtases pés descalços madrugada,
um dia.
Escrito por Eduardo Barrox às 10:27:13 PM
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collage & texto Eduardo Barrox
short cuts 2
"Você me diz isso porque não mora no Brasil”, diz o cara esquisito com aquele ar entre o arrogante e o inseguro que os sujeitos daqui acharam de encarnar pra parecerem artistas quando vão beber cerveja não tão gelada assim nos botequins careiros da vila madalena. que, por sua vez, virou uma merda com seus prédios de arquitetura fake de 'alto-padrão', lojinhas metidas a besta e peruinhas de cara afetada. sim, é verdade, não moro no Brasil. aliás tenho dúvidas sobre em que planeta eu posso ter nascido. aqui é que parece não ter sido. o que eu disse pro cara? que apesar de dedicar parte dos meus dias de trabalho lendo o que me é possível, desde as edições convencionais aos poetas de rua, auto-marginalizados e escritores ditos malditos com livros capengas à venda por cinco reais, não vejo contornos de nenhuma puta energia artístico-literária. parecem mais carinhas sem dinheiro a fim de catar menininhas (ou outros menininhos) burguesinhas(os) a fim de umas emoçõezinhas de fim-de-semana. em resumo, querem a melhor relação custo-benefício na hora de foder, se é que conseguem. e olha que nem abri a boca pra falar da chamada cultura oficial, esta já morta e enterrada faz tempo.
seja como for a cultura marginal não se define (ou nao poderia) por um rótulo (apenas).
ou não.
na praça Benedito calixto, onde parte do meu trabalho tá espalhado, encontro a escritora. ela (a escritora) é feia, diferente do que já li dela, meio carrancuda, magra, esquisita, com roupa esquisita; e tá com uma menina mais jovem que ela. usando a linguagem dos folhetins do século XIX, é uma menina voluptuosa - tipo peitão, bundona, coxas grossas – mostrando-se sob a saia curta, quando senta no degrau em frente à barraca do autor na praça, me olhando meio de lado, ora dizendo com os olhos que quer seduzir, ora mostrando que tem dona. fotografo as duas. em fotogramas separados, claro. a escritora mantém-se inflexível em seu olhar de celebridade não percebida pela crítica internacional, em que pese ser mais conhecida pelo que ainda pretende publicar do que propriamente pelo que já tem editado e me olha com o desdém de quem esperava encontrar o editor, sei lá, do niuiórquitaimes e não um cara com a minha cara e minha câmera pendurada no pescoço.. mas mesmo assim irá conceder parte de seu tempo a me ouvir fazer elogios ao seu trabalho. ou coisa assim. tenho vontade de lhe dizer que não curto seus textos (o que, óbvio, não impede que sejam bons e coisa e tal; afinal eu é que nem entendo de Literatura, pôrra), que - enfim - acho que é chata e que talvez devesse (pelo menos por algum tempo) ler mais e escrever menos, melhorar a qualidade e/ou intensidade. E as noções de gramática... mas isso é só uma opinião muito pessoal e desprovida de qualquer motivo lógico. afinal, mostro-lhes a fotografia feita na telinha da digital, sorrio pra gostosona confrontando o implacável olhar da escritora e viro as costas quando ela folheia meu jornal nervosamente com a cara emburrada que a caracteriza. ou melhor, só irá sorrir se aparecer alguém realmente 'importante'.
mas isso é outra história.
o cara vem me falar de novo: - "mas você também não mostra nada nessa pôrra de jornal. é bonito, reconheço, mas falta conteúdo". penso comigo o que será que ele quer dizer com falta conteúdo, ou melhor já sei que (pra ele) deve ser porque tem muito texto e pouca figurinha, e fico quieto procurando aceitar a ‘crítica’ com um sorriso algo entre o irônico e o quase descarado; e penso também que não sou mesmo um cara que sai do estúdio pra lamber saco dos agregados do secretário da (in)cultura ou coisa que o valha, ou mendigar verbas nos gabinetes desse poder ditatorial que ainda não acabou aqui na republiqueta, esses restos pútridos da cultura elitista imperial; assim como também não fico mendigando pixulés vendendo porcarias mal impressas e às vezes não muito bem escritas. mas não digo nada; não adiantaria, eu acho... mas eu penso, sempre penso em alguma coisa (pelo menos), até quando não parece que estou pensando.
são paulo é uma merda de cidade! quer dizer, é bacana e cosmopolita também. mas é uma merda quando chove, quando faz muito sol, quando tem muito trânsito ou quando os caras querem fazer ela parecida com niuiórque.
fode tudo.
nova york também é ruim se você não tem grana e não é amigo, vizinho, sei lá, do woody allen ou da yoko ono (não por eles em si, mas por orbitarem em torno dos poderes e, portanto, de um certo conforto material que pode se traduzir na forma de boas disponibilidades gastronômicas, apartamentos confortáveis e camas macias na hora do sono).
mas não é isso que interessa. nova york também pode ser boa, dependendo do boteco onde vai tomar cerveja e dos eventuais amigos de copo.
já a cidade (de São Paulo) é só esquisita nestes tempos terceiro-milênicos. caras buzinam o dia inteiro na oscar freire (e em todos os lugares o dia inteiro). quase sempre tenho que manter as janelas do estúdio fechadas pra suportar o barulho; o que também fode tudo, porque detesto ar-condicionado, curto vento na cara e natureza... na rua, pessoas passam e se enfrentam sem se olharem, esbarram-se agressivamente; se estão de carro escondem-se atrás dos vidros pretos e buzinam, buzinam, buzinam loucamente, xingam-se, jogam papéis no meio-fio... “deve ser porque têm a mãe na zona”, me diz com um sorriso largo o carinha de roupa simples indo pro ponto de ônibus. “coisa de recalcados, talvez”, se vai rindo sozinho da própria piada e muito digno depois de um dia de trabalho honesto (consigo mesmo). são poucos os que realmente trabalham nessa cidade de farsantes.
ah, sim, eu dizia! os escritores; os artistas; alguns de meus amigos. é lógico que isso não se aplica a todo mundo (err... de novo) e pode ser só uma impressão meio ácida, mas parece que a maioria se basta se ficam parecidos com alguém que viram na tv ou em algum desses filmes chatos que o primeiro mundo nos manda em lugar dos antigos colares de contas coloridas trazidos pelos invasores brancos a fim de enrabar as nativas.
e ficam essas pessoas me falando com muita naturalidade palavras como loft, fashion, dark, interface, stylish (sic)... apresentam-se - ops, fazem performances - nas ruas auto-referenciando-se como clowns e usando bolas vermelhas ridículas no nariz, desmerecendo a seriedade do palhaço verdadeiro. sim, sim; em 'sampa' - como alguns referem-se à cidade - cada dia mais o hábito faz o monge. principalmente se for à noite e em algum desses botequins que entram e saem rapidamente da moda...
mas é só (agora); também não quero ser só parecido com um sujeito ácido que detesta tudo.
de algumas coisas eu gosto: pode-se tomar um bom capuccino em uma infinidade de lugares, há belas mulheres pra se ver, fotografar e amar (não necessariamente nessa ordem), dois ou três bons restaurantes e algumas facilidades de cidade grande; embora ainda esteja distante 'anos-luz' de um lugar de primeiro mundo (aí entra o conceito de políticas sociais, educação - das pessoas enquanto cidadãs - no sentido mais expandido, etc..).
pode ser que um dia chegue lá, embora talvez eu não tenha essas décadas todas pela frente.
no começo da noite a escritora feia me telefona. "você vai publicar meu texto e minha foto?", pergunta. digo que não sei, e brinco dizendo que gostaria de comer a sua amiga, aquela gostosona da tarde. ela responde "tá", parece também se divertir, “mas só se você colocar meu texto no seu jornal”.
desligo. tento ver a lua cheia entre a placa de poluição, encho a taça de vinho e ligo a tv.
tem dia que é melhor a gente esperar até amanhã!
Escrito por Eduardo Barrox às 11:33:04 PM
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collage & texto Eduardo Barrox

o telefone toca de manhã MUITO CEDO e o cara se acorda assustado. ou melhor, telefones e buzinas e sirenes - muitos, de todos os tipos - tocam insistentemente todas as manhãs e é sempre um corre-corre entre móveis e almofadas, ou esteiras e redes. fazem um barulho infernal, enquanto em algum lugar do mundo, bombas explodem e os jornais dizem que agora os caras usam mulheres débeis mentais e é de se pensar que se livram de dois problemas pelo menos: o inimigo propriamente dito e o doente que a sociedade não pode acolher porque farinha é pouca... seja como for - e a essas alturas, quase no fim do segundo tempo - o cara se reconhece como não sendo ele, em frente aos espelhos. também é claro; afinal ninguém pode ter essa cara e esses cabelos e essa pele toda fodida. sim, hoje as revistas mostram uma mulher também seminua prometendo os mesmos paraísos, mas o celular com câmera de sensibilidade espectral infravermelha vê tudo de outra cor e monstros alienígenas movem-se pelas entranhas e paredes. a calcinha é de griffe me aponta a vendedora, também querendo alugar-se deste sorriso de olhos verdes, calientes lábios e o que resta de cérebro no cio. sim, me diz o cara sábio, é uma coisa assim meio judaico-cristã, você pode tentar sobreviver sem tanta dignidade em certos momentos se depois se arrepender convenientemente. não ouso perguntar se não seria mais legal JÁ ter essa tal dignidade e não fazer, por exemplo, guerras que normalmente matam quem nem sabia que tinha uma guerra logo ali na esquina. mas não há tempo! corra, me diz o velho, o inimigo já nos cercou e agora é uma questão de tempo (esse mesmo que não existe mais). por mais infinitos que sejam os conceitos e o relógio não pára (claro, ele também é de griffe) e crianças vendem drops e sexo fácil em qualquer esquina. mas não antes do cara bem sucedido, de terno escuro e gravata (de griffe, óbvio) se lambuzar politicamente correto em frente à fotografia clássica (?!? oh, my god!) da mulher estendendo a flor pra um grupo de soldados impássiveis tentando perceber o inimigo esteja onde ele estiver, mesmo que não esteja por perto. ah sim! sob o ar-condicionado de uma galeria de arte com portas de vidro que se abrem (por magia? me pergunta uma índia descendente de astecas) quando você se aproxima para entrar. soy loco por ti América, pero ahora no mucho, porque te foderam tanto que ficou sem graça e nem você já nem se importa. seja como for o tal capeta vestido de anjo - ou vice-versa - explode coisas banais com suas eventuais e descartáveis mulheres-bombas a caminho de um outro paraíso, enquanto no paraíso habilmente comercializado pelos meios de comunicação um sujeito que fala na mesma entonação do Pato Donald diz que manda soldados e manda matar por amor a mim, a você, à mulher dele, em nome da sociedade saudável, dos arianos bem barbeados e de suas companheiras (esposa! veja lá como fala! um deles me avisa) saudavelmente prostituídas e artificialmente perfumadas que falam alegremente ao celular e dirigem em ziguezague pela rua oscar freire transformada por força das contigências pré-capitalistas&selvagens em centro universal da civilização; embora jogar bitucas de cigarro pela janela do carro (importado viu?) com vidro escuro me pareça mais uma coisa de chimpanzés mais preocupados com as próprias bananas, sem levar em conta as que lhe foram atavicamente enfiadas no próprio rabo. E também olham com desdém a criança mestiça que come na calçada uma parte do lixo que esta sociedade extraordinariamente saudável produz às toneladas todos os dias todos os dias todos os dias, enquanto as notícias da tv dão conta de que acharam a cabeça da inglesa esquartejada no interior do Brasil, o que torna realidade a piada-manchete recorrente de que aqui neste torrão do hemisfério sul é fácil perder a cabeça. de um jeito ou de outro, me diz o velho espanhol ou italiano ou português ou alemão ou francês... salivando enquanto conta as menininhas de doze anos que já fodeu nas lindas praias do nordeste brésilien e me avisando que hoje vai ter leilão de virgens - "mas não sei se você pode entrar porque é brasileiro..." - e aí o presidente da república me avisa que vai tudo bem e nunca fomos tão felizes, embora no mesmo jornal um texto ensine que o Capão Redondo é o campeão paulistano de estupros e que em São Paulo e Rio se morre muito mais de morte violenta do que qualquer guerra já pôde proporcionar à humanidade. De modo que antes de sair pra ir à padaria (por exemplo) o ideal é que você escreva um testamento, embora ele possa depois ser contestado judicialmente; ou procure ler um livro de auto-ajuda. No fim do dia comparo as fotografias e desenhos, faço anotações num bloco de papel customizado, ouço jazz, penso que não consigo pensar quando fui feliz ou infeliz... De forma que caminho pela avenida paulista e sorrindo digo paz e amor, bicho! ou vá se foder! o que dá no mesmo nesses tempos em que as ideologias foram substituídas pelo pragmetismo e tanto faz um beijo na boca como uma punhalada nas costas.
in Café Literário#38 , ago-set 2008
Escrito por Eduardo Barrox às 5:12:23 PM
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