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Blog de Eduardo Barrox


fotografia por Barrox, série Cotidianos & Impertinências, 1990

And ... en la nuit fria e clara da primavera outonal da cidade maluca, nem tão maluca assim. Sob a bruma quase não vejo a mulher de maquiagem carregada atravessando a ponte em vestido justo e cabelos em desalinho. E olhar de desejo não de sexo nem de amor, mas de pixulés que lhe abrem diariamente as portas do paraíso ou mais um copo de bebida barata y um cigarro de crack. Pra depois botar tudo pra foder. E, a respeito das palavras, quase quase todas vãs. Ou ninguém tudo; ou nada e alguém. Fico querendo dizer não pras babaquices chamadas politicamente corretas e da atitude fake pretensamente urbana contemporânea, da gente sem eira que - de alguma forma - arranjou uma beira, que não suportam se olham en los ojos ou se olham com segundas terceiras péssimas intenções e que transformam e quase arruinam o eventual lirismo das avenidas terra de ninguém em que sujeitos equivocados equivocam-se passando sinais vermelhos e fodem menininhas também equivocadas e se atropelam e se chacinam mais que guerras. E vêem velhos e pobres com desdém. Até que, enfim, tenho que continuar nos jogos de faz-de-conta e meus circunstanciais pesadelos mostram o filho com uma espada sobre minha cabeça coadjuvado pelos sorrisos bruxelescos da moderna inquisição que condena as insustentáveis levezas e dá ingredientes amargos aos doces sonhos. Poemas de William Blake e preposições gramaticalmente difusas; meu Olhar-Câmera-mental-digital revela movimentos online noturnos y meu Olhar descansa confortavelmente através da velha e familiar teleobjetiva. Que também procura revelar cada um de seus segredos sempre que você me olha através do vidro dos óculos escuros e aí descubro (na fotografia) seu olhar intenso e te como enquanto vasculho sua intimidade porque quero te amar. Et... Avanços tecnológicos que aproximam terráqueos distantes em rápidas frações de segundo e prolongam a vida ad infinitum não são suficientes pra evitar que os caras buzinem antes que o sinal se abra completamente... Sallingereiscamente penso que quero distância disso tudo, e que preciso do silêncio do bicho que dorme e a música de quando você me diz nada do que quero ouvir. De qualquer forma, saio do circuito quando quero e porque não dá mesmo pra viver sob esse tipo de pressão. E pessoalmente sinto que os olhares do coro invisível não querem me ver dado que não sei jogar o jogo social da hipocrisia e – por mais idiota que seja dizer isso – o capitalismo me enche o saco e os neoliberais me torram a paciência e as pessoinhas de nariz empinado dessa cidade são absolutamente idiotas & as notícias de jornais apenas potencializem essa hipocrisia que não se importa de vender e foder meninas pré-adolescentes para apenas numerá-las nas estatísticas que matariam de vergonha qualquer dos caras do poder que tivesse um mínimo de dignidade. Depois fecho meus olhos porque quero ficar sonhando seu olhar, bebendo suas palavras vindas do outro lado do abismo, tentando descobrir significados e pensando num jeito de bebermos vinho tinto para comemorar as reviravoltas latentes ou passar duas horas de cinema ou mil e trezentas na Mostra de Cinema e depois nos fazermos amor como sempre deveríamos. Não te olho nem nos olhos porque meu cérebro arde toda vez. Mas observo atentamente seus lábios em movimento enquanto você lê poemas em voz alta e seu vestido resiste ao vento da tarde de sol e frio ao mesmo tempo e a transparência provocada por esta mesma luz deste mesmo sol me enche de desejo, além das naturais e antigas alegria e preguiça. Que penso em que depois tem outro dia e assim assim procuro formas de destruir as lógicas maniqueístas que me infernizam e me torturam e procuram me destruir a cada encarnação, porque o coro de vozes dos seres invisíveis não me responde às mais básicas e fúteis e necessárias expectativas, porque não sei se devo dar bom dia ou mandar todo mundo tomar no cu assim logo de cara antes do sol voltar, porque me emputece saber que o outro cara destrói plantas que deveria regar e porque fingem prolongar felicidades, mas na verdade é a última passagem antes da ponte que nos separa – nós humanos - sabe-se lá de onde. Até porque ninguém me garante que mortos têm savoir-vivre, então não me queira lá nunca, porque vou querer debater a legitimidade do juízo final, porque não entendo só o mal e o bem, porque não vou julgar e nem me considerar julgado. Porque passeio às vezes cantarolando alegria, alegria e/ou let the realing begin pelas ramblas no planeta e converso num boteco com miles davis e misturo taças de vinho tinto ao pão que me foi legado, em nome do pai, e que agora querem me tirar em nome do filho sem se darem conta de que apenas me importa o santo espírito. Y cosas assim...

Eduardo Barrox
publicado na edição#17 do Jornal da Praça



Escrito por Eduardo Barrox às 10:11:53 PM
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