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Blog de Eduardo Barrox


collage & texto Eduardo Barrox

 

 

short cuts 2

 

"Você me diz isso porque não mora no Brasil”, diz o cara esquisito com aquele ar entre o arrogante e o inseguro que os sujeitos daqui acharam de encarnar pra parecerem artistas quando vão beber cerveja não tão gelada assim nos botequins careiros da vila madalena.
que, por sua vez, virou uma merda com seus prédios de arquitetura fake de 'alto-padrão', lojinhas metidas a besta e peruinhas de cara afetada.
sim, é verdade, não moro no Brasil. aliás tenho dúvidas sobre em que planeta eu posso ter nascido. aqui é que parece não ter sido.
o que eu disse pro cara?
que apesar de dedicar parte dos meus dias de trabalho lendo o que me é possível, desde as edições convencionais aos poetas de rua, auto-marginalizados e escritores ditos malditos com livros capengas à venda por cinco reais, não vejo contornos de nenhuma puta energia artístico-literária. parecem mais carinhas sem dinheiro a fim de catar menininhas (ou outros menininhos) burguesinhas(os) a fim de umas emoçõezinhas de fim-de-semana.
em resumo, querem a melhor relação custo-benefício na hora de foder, se é que conseguem.
e olha que nem abri a boca pra falar da chamada cultura oficial, esta já morta e enterrada faz tempo.

seja como for a cultura marginal não se define (ou nao poderia) por um rótulo (apenas).

ou não.

na praça Benedito calixto, onde parte do meu trabalho tá espalhado, encontro a escritora.
ela (a escritora) é feia, diferente do que já li dela, meio carrancuda, magra, esquisita, com roupa esquisita; e tá com uma menina mais jovem que ela.
usando a linguagem dos folhetins do século XIX, é uma menina voluptuosa - tipo peitão, bundona, coxas grossas – mostrando-se sob a saia curta, quando senta no degrau em frente à barraca do autor na praça, me olhando meio de lado, ora dizendo com os olhos que quer seduzir, ora mostrando que tem dona.
fotografo as duas. em fotogramas separados, claro.
a escritora mantém-se inflexível em seu olhar de celebridade não percebida pela crítica internacional, em que pese ser mais conhecida pelo que ainda pretende publicar do que propriamente pelo que já tem editado e me olha com o desdém de quem esperava encontrar o editor, sei lá, do niuiórquitaimes e não um cara com a minha cara e minha câmera pendurada no pescoço..
mas mesmo assim irá conceder parte de seu tempo a me ouvir fazer elogios ao seu trabalho. ou coisa assim.
tenho vontade de lhe dizer que não curto seus textos (o que, óbvio, não impede que sejam bons e coisa e tal; afinal eu é que nem entendo de Literatura, pôrra), que - enfim - acho que é chata e que talvez devesse (pelo menos por algum tempo) ler mais e escrever menos, melhorar a qualidade e/ou intensidade. E as noções de gramática...
mas isso é só uma opinião muito pessoal e desprovida de qualquer motivo lógico.
afinal, mostro-lhes a fotografia feita na telinha da digital, sorrio pra gostosona confrontando o implacável olhar da escritora e viro as costas quando ela folheia meu jornal nervosamente com a cara emburrada que a caracteriza.
ou melhor, só irá sorrir se aparecer alguém realmente 'importante'.

mas isso é outra história.

o cara vem me falar de novo: - "mas você também não mostra nada nessa pôrra de jornal. é bonito, reconheço, mas falta conteúdo".
penso comigo o que será que ele quer dizer com falta conteúdo, ou melhor já sei que (pra ele) deve ser porque tem muito texto e pouca figurinha, e fico quieto procurando aceitar a ‘crítica’ com um sorriso algo entre o irônico e o quase descarado; e penso também que não sou mesmo um cara que sai do estúdio pra lamber saco dos agregados do secretário da (in)cultura ou coisa que o valha, ou mendigar verbas nos gabinetes desse poder ditatorial que ainda não acabou aqui na republiqueta, esses restos pútridos da cultura elitista imperial; assim como também não fico mendigando pixulés vendendo porcarias mal impressas e às vezes não muito bem escritas.
mas não digo nada; não adiantaria, eu acho... mas eu penso, sempre penso em alguma coisa (pelo menos), até quando não parece que estou pensando.

são paulo é uma merda de cidade!
quer dizer, é bacana e cosmopolita também.
mas é uma merda quando chove, quando faz muito sol, quando tem muito trânsito ou quando os caras querem fazer ela parecida com niuiórque.

fode tudo.

nova york também é ruim se você não tem grana e não é amigo, vizinho, sei lá, do woody allen ou da yoko ono (não por eles em si, mas por orbitarem em torno dos poderes e, portanto, de um certo conforto material que pode se traduzir na forma de boas disponibilidades gastronômicas, apartamentos confortáveis e camas macias na hora do sono).

mas não é isso que interessa.
nova york também pode ser boa, dependendo do boteco onde vai tomar cerveja e dos eventuais amigos de copo.

já a cidade (de São Paulo) é só esquisita nestes tempos terceiro-milênicos.
caras buzinam o dia inteiro na oscar freire (e em todos os lugares o dia inteiro).
quase sempre tenho que manter as janelas do estúdio fechadas pra suportar o barulho; o que também fode tudo, porque detesto ar-condicionado,
curto vento na cara e natureza...
na rua, pessoas passam e se enfrentam sem se olharem, esbarram-se agressivamente; se estão de carro escondem-se atrás dos vidros pretos e buzinam, buzinam, buzinam loucamente, xingam-se, jogam papéis no meio-fio...
“deve ser porque têm a mãe na zona”, me diz com um sorriso largo o carinha de roupa simples indo pro ponto de ônibus. “coisa de recalcados, talvez”, se vai rindo sozinho da própria piada e muito digno depois de um dia de trabalho honesto (consigo mesmo).
são poucos os que realmente trabalham nessa cidade de farsantes.

ah, sim, eu dizia! os escritores; os artistas; alguns de meus amigos.
é lógico que isso não se aplica a todo mundo (err... de novo) e pode ser só uma impressão meio ácida, mas parece que a maioria se basta se ficam parecidos com alguém que viram na tv ou em algum desses filmes chatos que o primeiro mundo nos manda em lugar dos antigos colares de contas coloridas trazidos pelos invasores brancos a fim de enrabar as nativas.

e ficam essas pessoas me falando com muita naturalidade palavras como loft, fashion, dark, interface, stylish (sic)... apresentam-se - ops, fazem performances - nas ruas auto-referenciando-se como clowns e usando bolas vermelhas ridículas no nariz, desmerecendo a seriedade do palhaço verdadeiro.
sim, sim; em 'sampa' - como alguns referem-se à cidade - cada dia mais o hábito faz o monge.
principalmente se for à noite e em algum desses botequins que entram e saem rapidamente da moda...

 

mas é só (agora); também não quero ser só parecido com um sujeito ácido que detesta tudo.

de algumas coisas eu gosto: pode-se tomar um bom capuccino em uma infinidade de lugares, há belas mulheres pra se ver, fotografar e amar (não necessariamente nessa ordem), dois ou três bons restaurantes e algumas facilidades de cidade grande; embora ainda esteja distante 'anos-luz' de um lugar de primeiro mundo (aí entra o conceito de políticas sociais, educação - das pessoas enquanto cidadãs - no sentido mais expandido, etc..).

 

pode ser que um dia chegue lá, embora talvez eu não tenha essas décadas todas pela frente.

no começo da noite a escritora feia me telefona. "você vai publicar meu texto e minha foto?", pergunta.
digo que não sei, e brinco dizendo que gostaria de comer a sua amiga, aquela gostosona da tarde.
ela responde "tá", parece também se divertir, “mas só se você colocar meu texto no seu jornal”.

desligo.
tento ver a lua cheia entre a placa de poluição, encho a taça de vinho e ligo a tv.

 

tem dia que é melhor a gente esperar até amanhã!



Escrito por Eduardo Barrox às 11:33:04 PM
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collage & texto Eduardo Barrox

o telefone toca de manhã MUITO CEDO e o cara se acorda assustado. ou melhor, telefones e buzinas e sirenes - muitos, de todos os tipos - tocam insistentemente todas as manhãs e é sempre um corre-corre entre móveis e almofadas, ou esteiras e redes. fazem um barulho infernal, enquanto em algum lugar do mundo, bombas explodem e os jornais dizem que agora os caras usam mulheres débeis mentais e é de se pensar que se livram de dois problemas pelo menos: o inimigo propriamente dito e o doente que a sociedade não pode acolher porque farinha é pouca... seja como for - e a essas alturas, quase no fim do segundo tempo - o cara se reconhece como não sendo ele, em frente aos espelhos. também é claro; afinal ninguém pode ter essa cara e esses cabelos e essa pele toda fodida. sim, hoje as revistas mostram uma mulher também seminua prometendo os mesmos paraísos, mas o celular com câmera de sensibilidade espectral infravermelha vê tudo de outra cor e monstros alienígenas movem-se pelas entranhas e paredes. a calcinha é de griffe me aponta a vendedora, também querendo alugar-se deste sorriso de olhos verdes, calientes lábios e o que resta de cérebro no cio. sim, me diz o cara sábio, é uma coisa assim meio judaico-cristã, você pode tentar sobreviver sem tanta dignidade em certos momentos se depois se arrepender convenientemente. não ouso perguntar se não seria mais legal JÁ ter essa tal dignidade e não fazer, por exemplo, guerras que normalmente matam quem nem sabia que tinha uma guerra logo ali na esquina. mas não há tempo! corra, me diz o velho, o inimigo já nos cercou e agora é uma questão de tempo (esse mesmo que não existe mais). por mais infinitos que sejam os conceitos e o relógio não pára (claro, ele também é de griffe) e crianças vendem drops e sexo fácil em qualquer esquina. mas não antes do cara bem sucedido, de terno escuro e gravata (de griffe, óbvio) se lambuzar politicamente correto em frente à fotografia clássica (?!? oh, my god!) da mulher estendendo a flor pra um grupo de soldados impássiveis tentando perceber o inimigo esteja onde ele estiver, mesmo que não esteja por perto. ah sim! sob o ar-condicionado de uma galeria de arte com  portas de vidro que se abrem (por magia? me pergunta uma índia descendente de astecas) quando você se aproxima para entrar. soy loco por ti América, pero ahora no mucho, porque te foderam tanto que ficou sem graça e nem você já nem se importa. seja como for o tal capeta vestido de anjo - ou vice-versa - explode coisas banais com suas eventuais e descartáveis mulheres-bombas a caminho de um outro paraíso, enquanto no paraíso habilmente comercializado pelos meios de comunicação um sujeito que fala na mesma entonação do Pato Donald diz que manda soldados e manda matar por amor a mim, a você, à mulher dele, em nome da sociedade saudável, dos arianos bem barbeados e de suas companheiras (esposa! veja lá como fala! um deles me avisa) saudavelmente prostituídas e artificialmente perfumadas que falam alegremente ao celular e dirigem em ziguezague pela rua oscar freire transformada por força das contigências pré-capitalistas&selvagens em centro universal da civilização; embora jogar bitucas de cigarro pela janela do carro (importado viu?) com vidro escuro me pareça mais uma coisa de chimpanzés mais preocupados com as próprias bananas, sem levar em conta as que lhe foram atavicamente enfiadas no próprio rabo. E também olham com desdém a criança mestiça que come na calçada uma parte do lixo que esta sociedade extraordinariamente saudável produz às toneladas todos os dias todos os dias todos os dias,  enquanto as notícias da tv dão conta de que acharam a cabeça da inglesa esquartejada no interior do Brasil, o que torna realidade a piada-manchete recorrente de que aqui neste torrão do hemisfério sul é fácil perder a cabeça. de um jeito ou de outro, me diz o velho espanhol ou italiano ou português ou alemão ou francês... salivando enquanto conta as menininhas de doze anos que já fodeu nas lindas praias do nordeste brésilien e me avisando que hoje vai ter leilão de virgens - "mas não sei se você pode entrar porque é brasileiro..." - e aí o presidente da república me avisa que vai tudo bem e nunca fomos tão felizes, embora no mesmo jornal um texto ensine que o Capão Redondo é o campeão paulistano de estupros e que em São Paulo e Rio se morre muito mais de morte violenta do que qualquer guerra já pôde proporcionar à humanidade. De modo que antes de sair pra ir à padaria (por exemplo) o ideal é que você escreva um testamento, embora ele possa depois ser contestado judicialmente; ou procure ler um livro de auto-ajuda. No fim do dia comparo as fotografias e desenhos, faço anotações num bloco de papel customizado, ouço jazz, penso que não consigo pensar quando fui feliz ou infeliz... De forma que caminho pela avenida paulista e sorrindo digo paz e amor, bicho! ou vá se foder! o que dá no mesmo nesses tempos em que as ideologias foram substituídas pelo pragmetismo e tanto faz um beijo na boca como uma punhalada nas costas.
 
in Café Literário#38 , ago-set 2008


Escrito por Eduardo Barrox às 5:12:23 PM
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